segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

23 de janeiro - Dia Internacional da Escrita à Mão





Hoje assumimos que, à nossa volta, a imensa maioria das pessoas lê e escreve. Tal como a informática, a escrita foi o início de um espaço dedicado apenas a alguns especialistas. Sucessivas simplificações permitiram que milhões de pessoas utilizassem ferramentas na sua vida quotidiana. Para esta progressão -, que no caso dos computadores, se verificou em apenas umas décadas -, foram necessários milhares de anos na história da escrita. (…)

Há seis mil anos, apareceram os primeiros sinais escritos na Mesopotâmia, mas a origem desta invenção está envolta em silêncio e em mistério. Algum tempo depois, e de forma independente, a escrita também nasceu no Egito, na Índia e na China. A arte da escrita teve, segundo as teorias mais recentes, uma origem prática: as listas de propriedades. Estas hipóteses afirmam que os nossos antepassados aprenderam o cálculo antes das letras. A escrita veio resolver um problema de proprietários ricos e administradores palacianos, que precisavam de fazer anotações porque lhes era difícil organizar a contabilidade de forma oral. O momento de transcrever legendas e relatos chegaria depois. Somos seres económicos e simbólicos. Começamos a escrever inventários, e depois invenções (primeiro as contas; de seguida, as histórias). 
Os primeiros apontamentos eram desenhos esquemáticos (uma cabeça de boi, uma árvore, um jarro de azeite, um homem pequeno). Com esses traços, os antigos latifundiários inventariam os seus rebanhos, os seus bosques, a sua despensa e os seus escravos. (…) Os desenhos tinham de ser simples, e sempre os mesmos, para que se pudesse aprender e decifrar. O passo seguinte foi desenhar ideias abstratas. (…) Gosto de imaginar os nossos ancestrais a saborearem a excitação de expressarem os seus pensamentos pela primeira vez; quando descobriram que o amor, o ódio, o terror, o desalento e a esperança se podiam escrever.
Equacionou-se de imediato um problema: são necessários demasiados desenhos para dar conta do mundo exterior e interior. (…) O número de sinais não parava de aumentar, sobrecarregando a memória. A solução foi uma das maiores genialidades humanas, original, simples e de incalculáveis consequências: deixar de desenhar as coisas e as ideias, que são infinitas, para começar a desenhar os sons das palavras, que são um repertório limitado. Assim, através de sucessivas simplificações chegaram às letras. Combinando letras conseguimos a mais perfeita partitura da linguagem, e a mais duradoura. Mas as letras nunca deixaram para trás o seu passado de desenhos esquemáticos. O nosso “D” representava originalmente uma porta, o “M” o movimento da água, o “N” era uma serpente e o “O” um olho. Ainda hoje em dia, os nossos textos são paisagens, onde pintamos – sem sabê-lo – a ondulação do mar, onde espreitam perigosos animais e olhares que não pestanejam”.

                                                                                           Irene Vallejo “O Infinito num Junco”

quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

O Natal escrito por autores portugueses





Uma literatura de afectos, por vezes fácil, outras vezes instrumental, mas outras tantas aprofundando a fenomenologia da condição humana, desenvolve-se aí com continuidades e inflexões em torno dos factores propiciatórios do conforto anímicos, da compensação nostálgica, da reanimação das esperanças – mais raramente, da refundação da virtude teologal da Esperança.
(Escola Secundária de S. João do Estoril – Agrupamento de Escolas de S. João do Estoril)
(https://bibliotecaesje.wordpress.com)


Um conto de Natal

Vá lá! Do mal, o menos. Em caso de necessidade, podia entrar e abrigar-se dentro. Assunto a resolver na ocasião devida... Para já, a fogueira que ia fazer tinha de ser cá  fora. O diabo era arranjar lenha.
Saiu, apanhou um braçado de urgueiras, voltou, e tentou acendê-las. Mas estavam verdes e húmidas, e o lume, depois de um clarão animador, apagou-se. Recomeçou três vezes, e três vezes o mesmo insucesso. Mau! Gastar os fósforos todos é que não.
Num começo de angústia, porque o ar da montanha tolhia e começava a escurecer, lembrou-se de ir à sacristia ver se encontrava um bocado de papel.
Descobriu, realmente, um jornal a forrar um gavetão, e já mais sossegado, e também agradecido ao céu por aquela ajuda, olhou o altar.
Quase invisível na penumbra, com o divino filho ao colo, a Mãe de Deus parecia sorrir- lhe. Boas festas! — desejou-lhe então, a sorrir também. Contente daquela palavra que lhe saíra da boca sem saber como, voltou-se e deu com o andor da procissão arrumado a um canto. E teve outra ideia. Era um abuso, evidentemente, mas paciência. Lá morrer de frio, isso vírgula! Ia escavacar o arcanho. Olarila! Na altura da romaria que arranjassem um novo.
Daí a pouco, envolvido pela negrura da noite, o coberto, não desfazendo, desafiava qualquer lareira afortunada. A madeira seca do palanquim ardia que regalava; só de cheirar o naco de presunto que recebera em Carvas crescia água na boca; que mais faltava?
Enxuto e quente, o Garrinchas dispôs-se então a cear. Tirou a navalha do bolso, cortou um pedaço de broa e uma fatia de febra e sentou-se. Mas antes da primeira bocada a alma deu-lhe um rebate e, por descargo de consciência, ergueu-se e chegou-se à entrada da capela. O clarão do lume batia em cheio na talha dourada e enchia depois a casa toda. É servida?
A Santa pareceu sorrir-lhe outra vez, e o menino também.
E o Garrinchas, diante daquele acolhimento cada vez mais cordial, não esteve com meias medidas: entrou, dirigiu-se ao altar, pegou na imagem e trouxe-a para junto da fogueira.
— Consoamos aqui os três — disse, com a pureza e a ironia de um patriarca. — A Senhora faz de quem é; o pequeno a mesma coisa; e eu, embora indigno, faço de S.José.
Miguel Torga



Natal à Beira-Rio

É o braço do abeto a bater na vidraça?
E o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa, 
a trazer-me a água da infância ressurrecta.


Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio 
que ficava, no cais, à noite iluminado...


Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra. 
E quanto mais na terra me envolvia
mais da terra fazia o norte de quem erra.


Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
à beira desse cais onde Jesus nascia...
Serei dos que afinal, errando em terra firme, 

precisam de Jesus, do Mar, ou de Poesia?
David Mourão Ferreira, Cancioneiro de Natal

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

Programa "O Mundo à nossa volta, cinema cem anos de juventude"


 As turmas do Curso Profissional de Turismo dos 10.º, 11º e 12.º anos participaram no Encontro de Escolas onde foram apresentados os filmes-ensaio produzidos pelas escolas envolvidas no programa no ano letivo 2021-2022.

A turma 11.º TIAT apresentou a sua curta metragem intitulada "Novos valores" e, à semelhança das outras escolas participantes, subiu ao palco para responder às perguntas do público, nomeadamente, sobre  processo de trabalho.